DANIEL FAGUS KAIROZ
bio
portfólio
pensamento coreográfico
Após submeter a palavra 'coreografia' à sua própria desconstrução ela se me revelou um modo não apenas de compor movimentos
mas de pensar o mundo
uma perspectiva a partir da qual
seria possível compreender as dinâmicas do mundo
me descolando assim da perspectiva naturalista do ocidente
o pensamento coreográfico se me mostrou um caminho filosófico
um modo de lidar com os movimentos da vida
orientação para o agir no mundo

Tudo está em movimento movendo se transformando
em mutação
em transmutação
cada ser existente
pensar o mundo coreograficamente é pensá-lo a partir dos seus movimentos
das suas dinâmicas
das leis q regem o encadeamento dos movimentos

assim
fui me aproximando mais e mais de tradições q possuem esse olhar coreográfico para com o mundo
um olhar extremamente elaborado
há ciências muito antigas q sistematizaram os movimentos deste mundo - penso no Yi Jing, penso no Ifá, penso no cosmograma Bantu
assim como há também ciências enquanto modos de vida
integralmente conectados com os movimentos de cada ser e do todo

frente à obsessão ocidental para com o ente e o universalismo o pensamento coreográfico se me mostrou
um caminho mais amoroso de pensamento

há um risco - dizer-se então q tudo seja 'coreografia'
de certa forma não deixa de ser
mas o q isso implica?
há um certo modismo hoje se usar a palavra 'coreografia' principalmente em campos distantes da dança
porém é notável quando algo é feito através de um 'pensamento coreográfico' ou quando não
quando se emprega a palavra 'coreografia' de forma vazia sem comprometimento apenas para dar um ar mais poético para uma determinada ação

o pensamento coreográfico é um modo de percepção do mundo mas não só
o pensamento coreográfico é principalmente um modo de atuação no mundo

quando se opera através do pensamento coreográfico toda a estrutura é desenhada a partir dos movimentos em jogo
– o q importa não são as coisas enquanto entes mas os movimentos de cada coisa o sendo de cada coisa seus movimentos e os movimentos q elas provocam no espaço e nas outras coisas

Trabalha-se então a com-posição desses movimentos
primeiro é preciso escutar as coreografias já presentes anteriores ao meu gesto coreográfico
os limites do meu gesto
saber se cabe tensionar esses limites jogar com eles ou manter uma certa distância do limite
atentar-se ao limite do limite

depois é preciso encontrar os 'elementos coreografantes'
ou seja aquilo q irredutivelmente mobiliza os corpos e suas dinâmicas no contexto coreográfico

se faz necessário em seguida sabermos o princípio e o fim da coreografia
- mesmo q a ideia seja manter algum desses pontos em suspenso
tão importante quanto abrir os trabalhos e saber como e o momento de fechá-los

conforme vai se escrevendo-desenhando essa coreo é preciso atentar-se para os pontos de abertura e de fechamento de cada momento da coreografia
há um conceito precioso na estética japonesa - koshi; nem uma textura coreográfica muito fechada q se apresente muito rígida; tampouco frouxa mole demais permitindo q os fios da trama se soltem uns dos outros a ponto da textura se desfazer

também é preciso cuidar dos corpos
cada movimento da cor(e)ografia provoca transforma altera os estados dos corpos
cuidar para não esquentar demais nem por muito tempo
nem esfriar demais nem por muito tempo
nem mover excessivamente nem permanecer inerte por tanto tempo a ponto da energia se dispersar
não saturar os corpos do coro ou exaurí-los
o prazer coreográfico o contentamento dos corpos é o limite

no âmbito de uma proposição tempo-espacial
como articular numa mesma coreografia diferentes movimentos q convocam mudanças de estado dos corpos do coro?

no âmbito de uma proposição espaço-temporal
como trabalhar a forma e as matérias de uma mesa por exemplo para q ela com sua permanência não estanque os movimentos do e no espaço nem seja um bloqueio ao deslocamento dos corpos?